Imagem: Lin May Saeed. Foto Jens Heine, fonte ARTnews.
Um ano após o seu desaparecimento precoce, devido a doença oncológica, recordamos Lin May Saeed (1973-2023), escultora germano-iraquiana cuja obra plástica tem como tema central a relação entre os animais humanos e os animais não humanos. Através de uma linguagem conceptual e formal bastante consistente, expressando uma vasta cultura de contos e fábulas, a artista conta histórias de subjugação e libertação de animais e a sua coexistência com os humanos.
Nascida em Würzburg, filha de pai iraquiano, formou-se na Academia de Artes de Düsseldorf. Na passagem pela academia (1995-2001) sensibilizou-se para o problema da exploração animal a partir da questão do uso das peles. Como explica à revista Schirm “No final da década de 1990, as peles estavam a se tornar populares na moda novamente. Era bastante percetível numa cidade da moda como Düsseldorf”. Começou a distribuir panfletos, conheceu outros ativistas e tornou-se vegan.
Ao Artists and Climate Change Saeed declarou que a ideia inicial era estudar cenografia, área onde já tinha trabalhado antes de entrar para a universidade. Porém, no final do primeiro ano do curso optou pela escultura porque “apesar do meu grande amor pelo teatro e ópera, tornou-se claro que essas artes performativas estavam centradas no Homem: não há animais no teatro. Nas artes visuais contemporâneas, o tema das relações homem-animal também não era tão bem-vindo, mas pelo menos era possível trabalhar sobre ele, já que num campo como a escultura eu podia escolher os meus próprios temas”.
A obra de Saeed não procura a realidade crua da crueldade animal, nem se foca na concretização dos direitos dos animais, que segundo a própria, “como uma noção positiva é um conceito abstrato e eu não poderia imaginar como seria (em termos plásticos)”. Antes preferiu imaginar o tratamento ideal dado aos animais e fazer o que designa por “obras de esperança” aproveitando para isso uma mudança na linguagem do ativismo que alternava cada vez mais o termo “movimento dos direitos dos animais por “movimento de libertação animal. “Esta mudança abriu-me um novo espaço de pensamento e tive uma ideia sobre a forma como poderia dar um contributo artístico. Permitiu-me pensar em imagens da libertação dos animais”. Exemplo disso é a série de obras The Liberation of Animals from their Cages (A Libertação dos Animais das suas Jaulas) na qual trabalhou desde 2006.

Para construir as esculturas e os relevos recorre muitas a um material não convencional, o poliestireno (no estrangeiro conhecido pela designação comercial Styrofoam, em Portugal como esferovite). É um material fácil de adquirir e leve, adequado para trabalhos de maior escala, todavia potencialmente contraditório com a mensagem artística na medida em que não é um produto ecológico. “Do ponto de vista ambiental, o Styrofoam é problemático. É produzido pelo homem, por isso é um material que revela a falibilidade humana. Num mundo perfeito não haveria Styrofoam” disse Saeed à revista BOMB. Em entrevista ao The New Institute acrescenta que “O Styrofoam […], tem […] pequenas esferas. […]. Gosto de imaginar que são átomos. Procuro a interação produtiva desses dois borrões, a granularidade do material e dos seres vivos que emergem dele. E talvez o mais importante: entendo minhas obras não como objetos, mas como sujeitos.”
A estética de Saeed conceptualmente está imbuída de referências distantes no tempo e no espaço, indo da filosofia contemporânea à mitologia secular, passando por referências bíblicas, sumérias, egípcias e árabes.
Concluído o curso estabelece o seu atelier em Berlim. A partir de 2007 é representada pelo galerista Jacky Strenz de Frankfurt, o atual detentor dos direitos comerciais da sua obra. Embora exponha há vários anos é sensivelmente a partir de 2018 que o seu trabalho começa a ser mais conhecido. O galerista Chris Sharp afirma que “Saeed e seu trabalho têm sido tudo menos um sucesso da noite para o dia. Porquê? Acho que tem tanto a ver com o assunto, bem como com a filosofia e o ativismo que o impulsiona, quanto com os materiais que ela usa. Em muitos aspetos, ela estava, francamente, à frente do seu tempo – uma boa década à frente – e uma das principais razões pelas quais este trabalho entrou subitamente na nossa alçada não é porque ela está a alcançar-nos, mas porque estamos finalmente a alcançá-la.”
Paulatinamente o seu trabalho começou a ser amplamente visto, aparecendo em locais por toda a Alemanha, como a Bienal de Berlim e o Museu Frieder Burda, bem como em outros locais europeus, como a Bienal de Escultura de Amesterdão, a Bienal de Artes Gráficas de Liubliana e o Castello di Rivoli em Turim. A partir de 2017 começa a expor individualmente, primeiro no espaço Lulu, Cidade do México, em 2018 no Studio Voltaire, Londres e em 2020, no The Clark Art Institute Massachusetts, EUA, com a sua exposição mais abrangente “Arrival of the Animals” (A chegada dos Animais). Ainda preparou, mas já não assistiu à sua última exposição (a primeira individual na Alemanha), patente entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024 no Museu Georg Kolbe em Berlim.
Para saber mais sobre a obra de Saeed:
Lin May Saeed, Empathetic Sculptor Who Viewed Animals as Her Equals, Dies at 50
Sculptor Lin May Saeed Dedicated Her Life to Animal Liberation, and Her Compassion Was Contagious
Lin May Saeed and Post-Anthropocentric Art
Lin May Saeed: Arrival of the Animals
About activism, beuys and spotted hyenas
In Paradise, the Snowflakes Fall Slowly. A Dialogue with Renée Sintenis
