O Museu Nacional de Arte Contemporânea de Atenas (MNACA) exibe até fevereiro de 2026 uma das maiores exposições realizadas sobre libertação animal, que questiona o excecionalismo humano e confronta o observador com a violência diária, institucionalizada e invisível contra os animais.
A exposição de arte contemporânea “Porquê olhar os Animais? Um Caso pelos Direitos das Vidas Não Humanas” foca-se na libertação animal, destacando a necessidade urgente de defender a vida dos animais não humanos num mundo antropocêntrico que os explora, oprime e brutaliza. A exposição é inspirada no ensaio homónimo de John Berger, “Porquê olhar os Animais?” (1980), que reflete sobre como os animais, antes profundamente integrados na vida humana, tornaram-se cada vez mais distantes, objetificados e mercantilizados.
Sob curadoria da diretora artística do MNACA Katherina Gregos, a exposição, resultado de uma década de pesquisa, reúne mais de 200 obras de mais de 60 artistas provenientes de 30 países de quatro continentes fazendo desta a maior exposição do museu até agora realizada. Segundo o jornal americano on-line de arte contemporânea Art News trata-se da primeira exposição a nível mundial deste género e escala sobre o tema da libertação animal ou dos direitos dos animais, um tema ainda algo incómodo na medida em que interpela a consciência do visitante, constituindo na prática um convite à mudança do estilo de vida da sociedade atual.
Em declarações ao site Domus Katerina Gregos «explica que hoje conhecemos os animais principalmente por imagens, não por experiência: eles se tornaram brinquedos ou atrações em zoológicos e circos. O objetivo da exposição, diz ela, é trazê-los de volta ao centro do palco — não como motivos decorativos como os cães e gatos nos retratos aristocráticos, mas como temas por si só. Esta não é uma exposição sobre animais na arte, mas sobre animais como eles mesmos.»
A exposição, que ocupa os sete pisos do museu, começa no piso – 1, onde o foco está nos fenómenos profundamente interconectados do colonialismo, industrialismo e “progresso” tecnológico que levaram à primeira destruição em larga escala de habitats, bem como à exploração violenta dos animais. Aqui, entre outras obras, um vídeo do artista singaporense Ang Siem Ching, High-Rise Pigs (2025) mostra o cenário distópico da maior suinicultura do mundo, um edifício de 26 andares situado na cidade chinesa de Ezhou. Homens e Caça, de Mark Dion, apresenta uma parede totalmente coberta de fotografias de caçadores posando com suas presas ao passo que Mostafa Saifi Rahmouni mostra como os corpos dos animais se tornam resíduos, como no caso das ovelhas abatidas após o Ramadão. A instalação solo de Janis Rafa explora a crueldade em relação ao cavalo, um animal nobre, porém esquecido. As fotografias do egípcio Nabil Boutros (Ovine Condition) devolvem individualidade às ovelhas — criaturas que normalmente só conhecemos desossadas no talho ou como símbolos religiosos.

You Are Not the Centre (inside the animal mind), pormenor da instalação de Emma Talbot exposta no Museu Nacional de Arte Contemporânea de Atenas. Foto da autora, 2025, in Emma Talbot
À medida que os visitantes sobem pelo museu, encontram obras que examinam o estado atual das coisas: como os animais que existem e sobrevivem em ambientes urbanos, exemplos de ativismo animal e novas formas de conhecimento animal, entre outros temas. Fotos de Paris Petridis exploram como os animais se adaptam e sobrevivem em ambientes urbanos enquanto enquanto que a instalação Sonic Space, curada por Joanna Zielińska, reúne gravações de campo e obras sonoras que exploram a linguagem animal.
Finalmente, no quarto andar do museu, a exposição muda de tom; poética, ecofeminismo, animismo, brincadeira, criatividade animal e humor se cruzam. Os animais recuperam sua dignidade, e o observador é levado a imaginar um mundo no qual haverá uma coexistência e colaboração entre espécies mais harmoniosa. É nesta parte da exposição que estão as obras de Saeed, mostrando ativistas abrindo as jaulas para a libertação dos animais.
Com esta exposição o MNACA busca fomentar uma discussão sobre a ética e a política de como tratamos os animais. Ao expor os mecanismos exploradores e violentos por trás do abuso sistémico de animais torna visível o que é vergonhosamente invisível. A exposição e seu programa público esperam conscientizar sobre as condições da vida animal não humana atualmente, desde a casa, a rua e a fábrica até seus habitats naturais ameaçados. Por que olhar para animais? nos convida a considerar o animal não humano não como “Outro”, mas como um ser com uma “voz” e valor intrínseco próprio, capaz de arte, brincadeira, socialização e transformação, prazer, inventividade, dor e luto.
Para saber mais sobre a exposição leia a entrevista da Katherina Gregos ao site Designboom e veja as fotos da exposição .
Imagem de destaque: algures na América do Sul um porco salta de um camião a caminho do matadouro. A imagem, retirada do vídeo Brave animals: Pigs jump from moving truck to escape slaughterhouse , é a imagem de cartaz da exposição “Porquê olhar os Animais? Um Caso pelos Direitos das Vidas Não Humanas”
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