A ONG L214 revelou mais um matadouro francês que não respeita as normas veterinárias de abate. Foram observados animais ainda conscientes mortos a sangue frio e o uso abusivo de aguilhões elétricos, com a cumplicidade das autoridades veterinárias. Polícia abre investigação por suspeita de “abusos e maus tratos graves”.
No matadouro de Porto-Vecchio, na Córsega, os veterinários fecham os olhos ao insuportável. É o que mostram as imagens da investigação da ONG animalista L214, filmadas no interior do matadouro público da Córsega. Bezerros, cabritos e ovelhas, ainda conscientes após um atordoamento mal sucedido, são sangrados, vacas gritam sob os golpes dos aguilhões elétricos, usados de forma excessiva: as infrações sucedem-se a cada etapa do processo de abate.
Apesar das numerosas e graves irregularidades, os serviços veterinários da prefeitura da Córsega do Sul, presentes no local, permitem que tais infrações ocorram, deixam que o sofrimento evitável dos animais continue. A ausência de imobilização adequada das vacas e ovelhas durante o abate sem atordoamento é claramente identificada pela veterinária da prefeitura. Mas a linha de abate não é suspensa por isso. No vídeo, ouve-se a veterinária dizer ao responsável:
«Aqui não estamos de todo em conformidade com os requisitos regulamentares. » Ela continua: « Vamos fazer assim, porque compreendo que há uma encomenda que tem de ser respeitada, mas não está em conformidade com a regulamentação. »
Na sequência desta investigação foram entregues 4 horas e 20 minutos de imagens de provas ao Procurador da República do tribunal judicial de Ajaccio que abriu uma investigação a 30 de julho por “abusos e maus tratos graves” de acordo com o Le Monde.
Ainda segundo o Le Monde e citando a Agência France Press (AFP), a investigação, confiada à gendarmaria de Porto-Vecchio, foi aberta“nesta fase por supostas violações das regras de abate e descumprimento das regras de atordoamento de animais”, disse o promotor de Ajaccio, Nicolas Septe.
A associação L214 também afirma que sua investigação revelou“a cumplicidade de serviços estatais, incluindo a DDPP (Direção Departamental para a Proteção das Populações) da Córsega do Sul, nas práticas ilegais de abate e nas instalações não conformes deste matadouro”. Propriedade da Comunidade da Córsega, o matadouro é administrado pelo Sindicato Misto do Abate em Córsega (SMAC), que ainda não reagiu à denúncia pública.
A associação L214 pede à prefeitura da Córsega do Sul o encerramento imediato do matadouro assim como dinamiza uma petição para o encerramento do matadouro de Port-Vecchio.
Em comunicado, o perfeito da Córsega do Sul, Jérôme Filippini, acusa a L214 de «montagem de vídeo que reproduz enganosamente as palavras de um funcionário público» e que omite deliberadamente a intervenção do inspetor que levou à suspensão do abate em vista das irregularidades verificadas. Afirma ainda que, de uma forma geral, os procedimentos de controlo foram observados e que nada do que foi constatado durante as inspeções justifica o encerramento do matadouro. Reconhece contudo que «os vídeos transmitidos pela L214 permitem observar não conformidades, que não haviam sido observadas durante as inspeções».
Face è recusa da Perfeitura em encerrar o matadouro de Porto-Vecchio a associação lança uma ação contra o Estado francês por não cumprimento da função de fiscalização e controlo veterinário ao mesmo tempo que apela a uma manifestação de cidadãos, prevista para dia 7 de agosto, diante do edifício da Perfeitura, a fim de reiterar o pedido de encerramento do matadouro.
Segundo a organização, esta já é a sétima investigação deste género que publicam em menos de um ano e todas elas identificam os mesmos problemas, o mesmo sofrimento dos animais. Em novembro, após uma investigação sobre o matadouro de Maurienne, a prefeitura de Savoie ordenou a sua suspensão. Em maio, foi o matadouro de Meaux que foi temporariamente fechado. Convictos que muitos matadouros não respeitam a lei a associação solicita uma auditoria geral ao centros de abate em França e respetiva publicação dos relatórios à Ministra da Agricultura.
Nota: artigo atualizado a 5 de agosto com a reação do Perfeito da Córsega do Sul e da associação L214.
Créditos de imagem: associação L214
