Cães vadios brincam numa praia da costa marroquina. Foto Esteban Sanches / morroco-phototours.com
Animalistas acusam Marrocos de pretender matar 3 milhões de cães errantes até 2030 para receber os turistas do Mundial de Futebol. O país tem um histórico problemático em lidar com os animais de rua mas o governo afirma que não tem plano para eliminar animais e compromete-se com soluções éticas para resolver o excesso de população canina.
Um problema antigo
As cidades marroquinas sempre tiverem um problema de controlo de cães e gatos vadios. A solução encontrada pelas autoridades locais para debelar o problema foi, pura e simplesmente, o abate dos animais, nos canis municipais ou mesmo na via pública, fosse com armas de fogo, fosse com veneno, provocando nos animais um sofrimento atroz e indigno de qualquer sociedade.
O governo marroquino experimentou em 2019 uma nova abordagem ao problema: tentou implementar a estratégia TNVR (sigla em inglês para Trap; Neuter, Vaccinate and Release, ou seja, Capturar, Esterilizar, Vacinar e Soltar em português), que tem demonstrado ser o método mais eficaz e ético para gerir a população de animais errantes. Várias instituições, incluindo o Ministério do Interior, o Ministério da Saúde, o Gabinete de Segurança Alimentar e a Ordem Nacional dos Veterinários assinaram um acordo de parceria para colocar em prática a estratégia TNVR.
Na sequência dessa parceria e segundo Mohammed Roudani, Chefe da Divisão de Higiene e Espaços Verdes da Diretoria de Serviços Públicos Locais do Ministério do Interior, citado pelo Maroc Diplomatique, os cães vadios são recolhidos em clínicas especializadas, esterilizados para limitar a sua reprodução, vacinados contra a raiva, tratados contra parasitas e devolvidos ao seu ambiente de origem após identificação, com total respeito pelo bem-estar animal. Para acelerar a implementação deste processo a nível nacional, o Ministério do Interior destinou, até ao final de julho de 2024, cerca de 80 milhões de dirames (aproximadamente 8 milhões de euros) destinados às comunidades para a construção e equipamento, no âmbito de uma parceria, de alojamentos para os animais de acordo com os critérios reconhecidos neste domínio, em particular em Oujda, Tânger, Ifrane, Sidi Slimane, Kenitra, Khemisset, Salé, Rabat, Témara, Béni Mellal, Agadir, Marraquexe e Casablanca, disse o Sr. Roudani, acrescentando que outros projetos semelhantes estão em estudo.
Além disso, o ministério está a trabalhar na criação de um programa que visa criar 130 gabinetes municipais de higiene, com um orçamento total de um bilhão e 40 milhões de dirhams (104 milhões de euros), disse o responsável do Ministério do Interior. Quando este programa estiver concluído até 2025, a taxa de cobertura nacional deste serviço chegará a quase 100%, em comparação com apenas 18% em 2018, de acordo com o diretor, observando que a gestão do fenómeno dos cães e gatos vadios, bem como a luta contra a raiva, constituem fundamentos essenciais deste programa. Cada gabinete municipal de higiene contará com dois médicos, dois enfermeiros, dois técnicos de saúde, bem como um veterinário responsável pela gestão do canil e pela supervisão das operações de esterilização dos animais recolhidos.
O Ministério do Interior apoia ainda anualmente as comunidades na aquisição de veículos equipados com gaiolas e equipamentos de captura de animais, com um orçamento que atingiu quase 70 milhões de dirhams (6,7 milhões de euros) nos últimos cinco anos.
Diante da falta de dados precisos sobre o número de cães vadios em Marrocos, o ministério assinou recentemente um acordo de parceria com o Instituto Agronómico e Veterinário Hassan II (IAV) para realizar um censo da população canina vadia, além de fornecer vacinas orais, garantiu o Sr. Roudani.
Não obstante os esforços do governo e a existência de bons exemplos, a realidade das ruas de Marrocos mostra que os cães vadios continuam a ser brutalmente baleados, envenenados ou deixados a morrer à fome. Ao mesmo tempo que as mortes desumanas dos animais mantem-se como prática corrente, aumentam os clamores públicos por parte das associações animalistas marroquinas e internacionais para que o governo invista mais na implementação o método de controlo populacional TNVR, uma abordagem humanista e aprovada internacionalmente pela Organização Mundial de Saúde. A pressão pública fez com que o governo do rei Mohammed VI enviasse em maio de 2023, por via do Ministério do Interior, uma circular aos municípios do país pedindo que evitem o uso de armas de fogo e veneno contra cães vadios, assim como a urgência de promover o método TNVR. O ministério também pediu a organização de programas de consciencialização nos municípios, enfatizando a necessidade de promover soluções éticas e eficazes para enfrentar os desafios associados à crescente população de cães vadios, como a raiva.
O Mundial de Futebol 2030 e a pressão internacional
Com a atribuição da organização do campeonato mundial de futebol de 2030 a Portugal, Espanha e Marrocos, que irá receber jogos em Tânger, Rabat, Marraquexe, Agadir, Fez e Casablanca, a questão das mortes cruéis dos animais tem vindo a assumir maior visibilidade internacional. Várias organizações de proteção animal têm vindo a afirmar que o governo marroquino deu ordens para “limpar” o país dos cães vadios afim de receber os turistas do futebol e que o aumento das mortes têm subido desde que foi atribuida a co-organização do mundial. O Daily Mail, num artigo de 14 de janeiro de 2025, amplamente difundido pela imprensa internacional, estima que até 2030 serão abatidos 3 milhões de animais a pretexto dos preparativos para o mundial.
A proeminente primatologista Jane Goodall juntou-se à campanha de denúnica International Animal Welfare Protection Coalition (IAWPC) e endereçou um apelo à FIFA para que intervenha junto do governo de Marrocos, acusando a organização de estar a fechar os olhos a um “ato horrível de barbárie”. Na carta aberta endereçada ao secretário-geral da FIFA, Mattias Grafström, Goodall disse que ficou chocada ao ver que as autoridades marroquinas estavam envolvidas nos assasinatos dos animais em grande escala – uma iniciativa que supostamente parou em agosto de 2024. “Estou igualmente chocada ao saber pela IAWPC que lhe foram apresentados dossiês detalhados que documentam estes atos horríveis, a maioria dos quais são conduzidos da forma mais brutal e cruel imaginável, e ainda assim parecem ignorá-los”, continuou.
Várias organizações animalistas criaram petições on-line (algumas ainda antes da atribuição do campeonato de futebol a Marrocos) quer para pressionarem o governo marroquino, como a petição Stop Killing stray dogs Morroco, sob iniciativa de várias organizações marroquinas, quer para pressionarem igualmente a FIFA, como a petição Help stop the violence inflicted on dogs in Morroco, da responsabilidade da IAWPC (ou ainda esta outra petição da mesma organização), a petição a Help Stop the Horrifying Extermination of Stray Dogs in Morroco, da ONG californiana Lady Freethinker ou ainda a petição Dogs Clamped, Poisoned & Shot for World Cup in Morocco da ONG americana In Defense of Animals. Outras organizações fazem apelos ou enviam e-mails à FIFA no mesmo sentido. Sobre todas estas notícias e apelos a FIFA ainda não se pronunciou.
Já a PETA do Reino Unido apela a Ronaldo, um dos embaixadores da candidatura ibérico-marroquina, para que doe uma pequena parte dos milhões de euros que ganha anualmente para apoiar a esterilização de animais de rua em Marrocos, de modo a os poupar de uma morte cruel.
Apesar das acusações da organizações internacionais, o governo marroquino nega que haja um plano para abater 3 milhões de cães até 2030, manifestando ao mesmo tempo o compromisso para com o desenvolvimento do método TNVR para controlar a população de animais errantes.
Até agora as organizações defensoras dos animais não comprovaram documentalmente a existência de ordens políticas ou de instruções técnicas que demonstrem ter havido por parte do governo marroquino a decisão de eliminar cerca de 3 milhões de cães até 2030. Mas mesmo assim, tudo indica que a vida dos animais de rua em Marrocos ainda vai ser até 2030 bastante difícil.
